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terça-feira, janeiro 06, 2009

Motel Paradise

- Oi, eu sou o Adão...
- Adão?
- É, Adão, o Peladão...
- Ah, sei, já ouvi falar...
Eu sou a Eva...
- Minha costela tá doendo...
- Heim?
- Nada não, deixa para lá...
- Bom: vamos começar, né?
- Claro...
O que que eu faço?
- Ele não te ensinou?
- Nem...
- Ah, sei lá...
Eu acho que você põe a mão nesses dois
montinhos bicudos aqui em cima...
- Assim?
- É... Mas pode largar a maçã, se quiser...
- Ah, é, desculpe... Tô um pouco nervoso... E agora?
- Não tenho certeza, mas acho que você gruda o lugar
com que você fala no meu e mete esse negócio
vermelho molão lá dentro...
- Achim?
- Credo! Que bafo de onça...
- Desculpe... Peraí que eu vou mastigar umas pétalas de flor...
Nham, nham, nham... Melhorou?
- Melhorou...
- E agora?
- Sei lá... Tem certeza que Ele
não te disse?
- Disse... Disse que era para
você fazer carinho nesse treco
pendurado aqui que ele cresce...
- Nem morta! Eu tenho nojo...
Além do mais, eu também tenho medo. Sei lá de que
tamanho fica esse bicho...
- Precisa ficar com medo, não... Aposto que é menor
que certas coisinhas que você já viu por aí...
- Tá insinuando o que, heim, moleque?!?
- Tô falando dessa cobra asquerosa que não larga do
teu pé...
- Vai catar coquinho, cabeça de melão...
- Escuta aqui, ô, Maria Costela... Vamos começar
logo o serviço porque eu não tô a fim de agüentar
piripaque de mina fresca.
- Maria Costela é esse buraquinho que você tem aí atrás...
- Vai, abre logo essas pernas...
- Vê lá como fala, heim, Zé Parreira...
- Peraí... Peraí... Ó, o bicho cresceu, viu?
- Olha só... quem diria... E ficou duro pacas...
Ai... E se doer?
- Não dói, não...
- Tá bom, então manda pau...
- Taí, gostei... Vamos chamar o treco pendurado de pau!
- Legal... E ela?
- O buracão?
O buracão a gente chama de caverna peluda...

- Muito romântico...
- Arghhh!!!!
- Que foi?
- Tá tudo melado aí dentro!!!
Não vou meter meu "pau" aí nem que a
vaca tussa...
- Saco!
Vou reclamar com Ele..
Aliás, sabe o que eu acho? Acho que você é um
tremendo gayzão!!!
- Gayzão? Que que é isso?
- É homem que gosta de homem...
- Cadê o outro homem, burra?
- É mesmo, fica difícil ser gay por aqui...
- Nossa! Olha aquilo!!!
- O que?

Clunca!

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!! Cafajeste!
Doeu viu...
- Relaxa, benzinho...
O pior já passou...
Olha, faz assim: quando eu for para cá,
você vai para lá... Quando eu for pra lá, você vem pra cá...
Tá bom?
- Tá...
- Então, vamos! Um, dois e...

Balança, balança, balança...

- Ai, Adão... Assim tá gostoso...
- Yes! Yes! Yes!
Hei! Para que serve esse negocinho aí em cima do
cavernão peludo?
- Não sei, mexe para ver...

Clica! Clica! Clica!

- Ai, mexe mais...
Não para! Não para! Não para!!!!!!!!!
- Não vo...vo... vo... vou... pa.. pa... pa...rar...
- Aaa...
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- Ooo...
Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Pausa

- Ai, meu Deus do Céu... O que foi isso?
- Não sei, mas para mim foi bom demais...
Foi bom para você?
- Se foi...
Senti uma coisa estranha...
- Como o que?
Como se estivesse... no PARAÍSO...
- Pode crê!

Sabe quando está indo tudo super bem na sua vida? Você tem um trabalho maravilhoso, um companheiro bárbaro, saúde, bolo de chocolate na geladeira e mesmo assim você não se sente feliz? Pois é, eu chamo isso de "Síndrome de Falta de Enxada".
Pelo menos é o que o avô de um amigo costumava dizer quando a gente começava a cavar problema onde não tinha. Ele dizia para carpirmos na terra seca durante algumas horas que isso passava. E ele tinha razão mesmo.
Quando tenho ataques desse tipo (e, acredite, vivo tendo ataques desse tipo, do nada, por motivo nenhum), minha mãe Clarice deixa gravada na minha secretária eletrônica uma frase bem simples: "Não estrague o que você tem, querendo o que você não tem". Pois é, sabedoria de mãe também funciona nesses momentos.
Por que temos que implicar sempre com a felicidade? Por que adoramos flertar com a infelicidade, a reclamação? Por que não vivemos sem transformar minhocas em Anacondas?
Às vezes, acho que a resposta é simples e mais uma vez está relacionada com essa facilidade que temos de não prestar atenção ao presente. Quando não prestamos atenção ao presente, não absorvemos, não curtimos, não sentimos as coisas boas que estão pertinho de nós.
Às vezes, acho que a resposta é mais profunda e está ligada a um eterno questionamento sobre qual o sentido da vida. Será que amor, trabalho, uma dúzia de amigos fantásticos e 5 ou 6 pares de sapatos são o suficiente para que nossa vida tenha um sentido?
Fico dias pensando nessa resposta, me aborreço, aborreço minha família, perturbo meu namorado e, de repente, abro uma revista e está lá, na minha frente, uma frase da Amma (uma guru da Índia que recebe milhares de pessoas do mundo inteiro que vão visitá-la apenas para receber um abraço) que diz: "Devemos ser como velas, emprestando nossa luz para a humanidade".
Aí, relaxo, e me entrego à maravilha do sagrado, do misterioso, do profundo, da compaixão que está além do tesão, das coisas que queremos comprar, dos quilos a mais, das ruguinhas novas, dos amigos que nos traíram, dos homens que nos magoaram, dos prêmios que deixamos de ganhar, do buraco no banco, da tatuagem que borrou...

Gisela Rao, jornalista.
Adoro o jeito que essa mulher escreve...